Os cantores “castrati”

Resultado de imagem para castratiAcredita-se que, em geral, os estilos de canto ocidental moderno remontam apenas ao final do século XVI. Inicialmente é provável que a voz masculina aguda fosse preferida pela sua grande potência, em vista de um tórax mais avantajado que o das mulher. O surgimento da ópera e as restrições impostas às vozes femininas, influenciaram a arte do canto e a procura de vozes não só adequadas de soprano, mas sobretudo potentes. Isso era encontrado nos cantores pre-púberes masculinos que, infelizmente, logo perdiam seu dom e “engrossavam” a voz ao atingirem a puberdade.

Como resultado da expulsão das mulheres dos palcos e coros, decretada pela Igreja, surgiram no século XVIII, os “castrati”, que eram cantores castrados antes da puberdade para preservarem o registro de soprano ou contralto da voz. Apoiada em pulmões masculinos, essa voz era ágil e penetrante.

Os “castrati” foram usados pela Igreja Católica durante mais de 300 anos e ocuparam uma posição dominante na ópera dos séculos XVII e XVIII, tendo sido fundamentais no desenvolvimento e popularização da ópera italiana (Monteverdi dava preferência ao uso de “castrati” em suas obras).

A voz “castrato” atendia à necessidade dos compositores da Contra-Reforma de vozes agudas e expressivas na música de igreja, e os “castrati” foram então utilizados nos três séculos seguintes. Na ópera, sopranos e “castrati” tornaram-se os cantores mais valorizados no período barroco, com sua eloqüência insuperável no estilo novo e fluente do “bel canto” e, em alguns casos, o resultado dessa operação tornou possível uma voz de assombrosa irrealidade de tom e perfeição técnica. Para muitas dessas vítimas desse sofisticado barbarismo, o resultado foi uma carreira em obscuridade provincial perdida, enquanto outros tiveram um sucesso de superstar hollywoodiano.

Farinelli e Alessandro Moreschi, O último “Castrato”

Resultado de imagem para Alessandro MoreschiO mais famoso “castrato” foi o napolitano Carlo Broschi (1705-1782),conhecido como Farinelli e que foi tema recente de película cinematográfica homônima.

Castrado aos sete anos de idade, Farinelli cantou a partir dos anos 1720 em óperas, incluindo várias de seu professor, o famoso Nicolau Porpora, e da maioria dos compositores de sua época. No auge de sua forma vocal, cantou em Londres e foi altamente louvado pela sua agilidade, pureza tímbrica e bela sonoridade e teria sido capaz de sustentar uma nota por mais de um minuto sem respirar.

Desfrutou de aposentadoria, dono de enorme riqueza recebendo, em sua propriedade em Bolonha, o Padre Martini, Chistoph W.Gluck e Mozart e foi muito influente na difusão do estilo musical floreado.

Outro “castrato” mezzo-soprano famoso, foi Gaetano Cafarelli (1710-1783), também aluno de Porpora e compositor para o qual Händel escreveu a famosa ária “Ombra mai fù” de Xerxes (o “Largo”). Sua voz era encantadora, inferior apenas à de Farinelli, mas sua arrogância o tornou impopular.

Foram também famosos Loreto Vitori, que permaneceu na Itália, e Baldassare Ferri, que serviu às cortes de Varsóvia e Viena. É conhecido o episódio do grande Franz Joseph Haydn que, como cantor da Igreja de Santo Estevão, quando viu sua voz mudar, ficou num sério dilema: se se submetesse à castração, conservaria sua função, mas o jovem preferiu enfrentar os rigores de uma nova condição passando fome e frio, cedendo seu lugar ao irmão Michael, mais jovem que ele, preservando assim sua integridade física.

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Em 1878, o Papa Leão XIII extinguiu a castração e o último “castrato” de que se tem notícia, foi Alessandro Moreschi, falecido em 1922. Sua voz foi gravada e se constitui hoje, no único registro do verdadeiro som produzido por um “castrato”.

por: Aristides A. J. Makowich

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