A orquestra e o músico de orquestra

*por Charles Munch

Uma orquestra não é um instrumento dócil. É um corpo social, um conjunto humano que tem uma psicologia e reflexos, que é preciso não agredir, e sim orientar. O ensaio tem por finalidade o trabalho. Ele é indispensável à orquestra e ao maestro. Um solista não pensaria em se apresentar sem estudar seu instrumento. A orquestra é o instrumento do maestro. Para um melhor resultado, o maestro não deve fazer discursos.

Os músicos vêm para tocar, não para ouvir uma conferência ou assistir à uma aula. Digamos o indispensável em poucas palavras. Os músico têm horror de receber lições. Nunca devemos desencorajá-los e sim dar confiança aos que têm dificuldades. não insistir sobre um erro cometido, nem humilhá-lo diante dos seus colegas com observações vexatórias. Os instrumentistas sabem apreciar o valor do maestro assim que este sobe ao pódio e abre a partitura. Em seu maravilhoso livro “A arte de dirigir uma orquestra”, Wagner escreveu: “Só os músicos de orquestra têm a faculdade de julgar se uma regência é boa ou má”. Antes de um concerto, um músico, interrogado sobre qual seria o programa regido por um maestro de renome, respondeu: “O que ele vai reger eu não sei…mas NÓS vamos tocar a Vª Sinfonia de Beethoven”.

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Existe um momento solene na preparação de um concerto, quando pela primeira vez tomamos contato com uma orquestra desconhecida ou que não regemos há muito tempo. Não estamos diante de uma orquestra e sim diante de uma centena de seres humanos que têm suas alegrias, tristezas, dificuldades. É um tête-à-tête silencioso, de onde nasce um clima de simpatia, cordialidade e confiança. Não deveria ser permitido que pessoa que se detestassem tocassem juntas.

O horário de um músico de orquestra é minuciosamente regulado. O motivo da sua atividade febril não é a ganância de grandes lucros. A simples necessidade de viver, morar, alimentar-se, vestir-se, etc. é imperiosa para os músicos, como para todos os outros homens.

Muitos não sabem como a profissão de músico de orquestra pode ser dura. O público não imagina como os metais, por exemplo, têm um trabalho exaustivo numa ópera de Wagner. Aliás, mesmo para as cordas é extenuante tocar cinco horas seguidas. Fazer o maior número possível de cachês se torna uma idéia fixa. Acho um milagre que nesse rítimo de trabalho o instrumentista ainda guarde seu entusiasmo, sua fidelidade à música e seu amor à profissão.

Às vezes, um spalla sai de sua estante para solar um concerto. Seus colegas sabem aplaudí-lo sem inveja. Porém um autêntico músico de orquestra não pensa em fazer carreira de solista. Sua visão musical o leva de preferência para a música de câmera, trios, quartetos, quintetos.

Vejamos uma orquestra instalada no palco antes da entrada do maestro. Não se pode dar nome à todos esses rostos. No entanto eles merecem nossa estima e nossa admiração, tanto quanto os virtuoses que preferiram o glorioso isolamento do solista ao esplêndido anonimato da orquestra.

*Charles Munch dirigiu a Orquestra Sinfônica de Boston de 1949 a 1962

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