O cérebro musical

Ao nascer, um bebê é capaz de ouvir e identificar as nuances entre fonemas de todas as línguas. Entre o sétimo e o décimo mês de vida, porém, os sons articulados pela criança já correspondem a fonemas da língua materna. Com 1 ano de vida, a criança perdeu muito a capacidade de identificar sons diferentes dos de sua língua nativa, diz o neurologista Luiz Celso Vilanova. Os bebês ficam como que surdos para sons ausentes de sua língua familiar. Na medida em que os circuitos neurais vão-se ligando, para, por exemplo, a língua portuguesa, a criança tem menos facilidade de identificar fonemas característicos de outras línguas.

A pesquisadora americana Patricia Kuhl, da Universidade de Washington encontra assim a explicação para a dificuldade de se adquirir uma segunda língua sobretudo após os 10 anos de idade. Aprender, aprende, afirma Erasmo Casella, neurologista infantil do Hospital das Clínicas de São Paulo. Mas sempre com sotaque. Até o terceiro ano de idade, afirma o doutor Muszkat, a facilidade na aquisição de línguas estrangeiras é até quatro vezes maior do que entre os adultos. Não é à toa que o ensino de inglês para bebês de 1 ano tornou-se relativamente comum entre famílias abastadas. As mães não precisam mais pegar-se em dúvidas sobre colocar a meninada em escolas onde a tia virou teacher. Cientificamente, portanto, está provado: é mais fácil começar a aprender um idioma estrangeiro na primeira infância.

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A música é um dos estímulos mais potentes para ativar os circuitos do cérebro. A janela de oportunidades musical abre-se aos 3 e fecha-se aos 10 anos. Não por acaso, conhecem-se tão poucos concertistas que se tenham iniciado no aprendizado musical depois de iniciada a adolescência. Em outubro de 1995, pesquisadores da Universidade de Konstanz, na Alemanha, estudaram o cérebro de nove músicos destros, do naipe das cordas de uma orquestra local. Graças ao exame de ressonância nuclear magnética, perceberam que as porções cerebrais relacionadas aos movimentos do polegar e do dedo mindinho da mão esquerda eram maiores do que entre os não músicos. Nessa diferença, não importava a quantidade de horas dedicadas ao estudo musical, e sim, em que idade eles haviam sido apresentados aos instrumentos – sempre cedo.

Resultado de imagem para cerebro musicalMas a música não serve apenas para incentivar as crianças a ler uma partitura, apreciar um concerto, mais tarde, e quem sabe evitar que se tornem metaleiras insuportáveis. É capaz de imprimir no cérebro a compreensão da melodia das próprias palavras. Aos 8 anos, o poeta inglês W.H. Auden (1907-1973) era submetido a sessões operísticas intensas por sua mãe, Constance Rosalie. Ela gostava especialmente de Tristão e Isolda, de Wagner, e reproduzia com Auden os duetos da obra. Estaria aí uma possível explicação para a extraordinária musicalidade dos poemas de Auden, feitos mais para ser lidos em voz alta.

A divisão melódica das obras clássicas exige um tipo de automatismo matemático acurado. Essa seria a razão por que as conexões nervosas acionadas ao se executar uma peça estejam tão próximas, no córtex cerebral esquerdo, daquelas usadas ao se fazer uma operação aritmética ou lógica. A música relaciona-se ainda a outros dons, como a capacidade de percepção de sons sutis. O professor Vilanova já observou que os alunos de medicina habituados a ouvir música clássica têm maior facilidade para auscultar corações e pulmões. Gordon Shaw e Frances Rauscher, da Universidade da Califórnia, num trabalho com dezenove pré-escolares, descobriram que, após oito meses de aulas de piano e canto, as crianças se saíram muito melhor na cópia de desenhos geométricos do que as que não tiveram aulas de música. Os pequenos músicos eram melhores na percepção espacial e muito mais eficiente, por exemplo, no jogo de quebra-cabeça. Mozart neles, então. E rápido.

Fonte: texto extraído de matéria publicada na revista Veja de 20/03/96

A orquestra e o músico de orquestra

*por Charles Munch

Uma orquestra não é um instrumento dócil. É um corpo social, um conjunto humano que tem uma psicologia e reflexos, que é preciso não agredir, e sim orientar. O ensaio tem por finalidade o trabalho. Ele é indispensável à orquestra e ao maestro. Um solista não pensaria em se apresentar sem estudar seu instrumento. A orquestra é o instrumento do maestro. Para um melhor resultado, o maestro não deve fazer discursos.

Os músicos vêm para tocar, não para ouvir uma conferência ou assistir à uma aula. Digamos o indispensável em poucas palavras. Os músico têm horror de receber lições. Nunca devemos desencorajá-los e sim dar confiança aos que têm dificuldades. não insistir sobre um erro cometido, nem humilhá-lo diante dos seus colegas com observações vexatórias. Os instrumentistas sabem apreciar o valor do maestro assim que este sobe ao pódio e abre a partitura. Em seu maravilhoso livro “A arte de dirigir uma orquestra”, Wagner escreveu: “Só os músicos de orquestra têm a faculdade de julgar se uma regência é boa ou má”. Antes de um concerto, um músico, interrogado sobre qual seria o programa regido por um maestro de renome, respondeu: “O que ele vai reger eu não sei…mas NÓS vamos tocar a Vª Sinfonia de Beethoven”.

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Existe um momento solene na preparação de um concerto, quando pela primeira vez tomamos contato com uma orquestra desconhecida ou que não regemos há muito tempo. Não estamos diante de uma orquestra e sim diante de uma centena de seres humanos que têm suas alegrias, tristezas, dificuldades. É um tête-à-tête silencioso, de onde nasce um clima de simpatia, cordialidade e confiança. Não deveria ser permitido que pessoa que se detestassem tocassem juntas.

O horário de um músico de orquestra é minuciosamente regulado. O motivo da sua atividade febril não é a ganância de grandes lucros. A simples necessidade de viver, morar, alimentar-se, vestir-se, etc. é imperiosa para os músicos, como para todos os outros homens.

Muitos não sabem como a profissão de músico de orquestra pode ser dura. O público não imagina como os metais, por exemplo, têm um trabalho exaustivo numa ópera de Wagner. Aliás, mesmo para as cordas é extenuante tocar cinco horas seguidas. Fazer o maior número possível de cachês se torna uma idéia fixa. Acho um milagre que nesse rítimo de trabalho o instrumentista ainda guarde seu entusiasmo, sua fidelidade à música e seu amor à profissão.

Às vezes, um spalla sai de sua estante para solar um concerto. Seus colegas sabem aplaudí-lo sem inveja. Porém um autêntico músico de orquestra não pensa em fazer carreira de solista. Sua visão musical o leva de preferência para a música de câmera, trios, quartetos, quintetos.

Vejamos uma orquestra instalada no palco antes da entrada do maestro. Não se pode dar nome à todos esses rostos. No entanto eles merecem nossa estima e nossa admiração, tanto quanto os virtuoses que preferiram o glorioso isolamento do solista ao esplêndido anonimato da orquestra.

*Charles Munch dirigiu a Orquestra Sinfônica de Boston de 1949 a 1962