Richard Wagner (1813 – 1883)

Um multidão de fãs, animados com um fervor quase religioso, sobe as pequenas e estreitas ruas da cidade de Bayreuth, na Alemanha, em direção ao teatro localizado no alo de uma colina. Estão dispostos a qualquer sacrifício para participar de um festival de música. Realmente não é fácil: os ingressos precisam ser reservados com nada menos de cinco anos de antecedência. Não há cambistas, e as bilheterias só vendem um ingresso por pessoa. O motivo desta peregrinação não é nenhum grupo de rock’n’roll ou algum artista pop. Ao contrário, Bayreuth é um templo da arte erudita, e todo o movimento ao seu redor é motivado por um único nome: Richard Wagner.

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Wilhelm Richard Wagner é um nome que desperta os mais contraditórios sentimentos, exceto indiferença. Criador do Drama Musical, também chamado, por ele mesmo, de “obra de arte total”, Wagner lançou as bases para a dissolução do sistema harmônico tonal. Ao mesmo tempo, seus escritos sobre arte, cultura e política causaram uma seleuma jamais vista. Foi revolucionário e monarquista; era anti-semita, o que não o impedia de ter amigos judeus; admirava a arte musical italiana, mas criou um tipo de música que derrubou a supremacia da ópera italiana na música vocal. Megalomaníaco, não hesitou, em sua autobiografia, para criar uma imagem heróica, à beira da perfeição. Acreditava que depois de sua obra a música nunca mais seria a mesma – e estava certo.

O primeiro paradoxo de Richard Wagner é justamente seu nascimento. É curioso notar que o compositor preferido de Hitler, aquele cujas músicas eram a trilha sonora das reuniões do Partido Nazista em Nuremberg, talvez tenha sido filho de um judeu. A questão é deveras complicada, e não existe, nem entre os mais eminentes biógrafos, uma resposta conclusiva. Além disso, toda a questão transcorre muito rapidamente, no intervalo de pouco mais de um ano:

Richard Wagner nasceu a 22 de maio de 1813, em Leipzig, filho, ao que tudo indica, de Karl Friedrich Wilhelm Wagner. Todavia, este faleceu poucos meses depois, em 23 de novembro. Quase imediatamente sua mãe se casa com o ator e pintor Ludwig Geyer. Alguns autores insinuam que Johanna, mãe de Wagner, já era amante de Geyer, de modo que seu filho Richard Wagner seria na realidade filho de Geyer. Existem provas suficientes tanto para provar como para refutar essa hipótese mas, fato curioso, Wager, até os quinze anos de idade, usava o nome de Richard Geyer.

Entre a música e o teatro

Resultado de imagem para Richard WagnerDesde pequeno Wagner mostrava um duplo pendor artístico, voltanto-se tanto para o teatro quanto para a música. Não é de estranhar, portanto, que sua obra tenha sido uma fusão dessas duas formas. Decidiu-se pela música, sem no entanto abandonar a literatura e o teatro. Não foi um garoto prodígio, mas sua inteligência e capacidade dinâmica revelaram-se desde pequeno, quando montava pequenas peças com a própria família. Além disso, o sentido teatral nunca lhe escapou, e Wagner não perdia uma oportunidade de, mesmo em seus escritos, apresentar-se como o herói – como em uma ópera.

Aos onze anos começou a estudar música; um pouco tarde para ser um instrumentista, mas ainda a tempo de se tornar um compositor. Com dezoito anos já escrevia suas primeiras peças musicais, e aos 21 completou sua primeira ópera, “As Fadas”. Todavia, foi seu segundo trabalho operístico, “A proibição de amar” o primeiro a ser levado à cena, em 1836. Nesse mesmo ano casou-se com a cantora Christine Planner, conhecida como “Minna”. O casamento, turbulento, atribulado e marcado por infidelidades de ambos os lados, sustentou-se por um longo tempo.

Pouco depois do casamento, Wagner aceitou o posto de mestre-de-capela na pequena cidade de Riga, na Rússia. Ficou lá até 1839, quando decidiu tentar a sorte na França. Em sua bagagem, levava os manuscritos de sua primeira obra importante, Rienzi, para ser encenada na capital francesa. Todavia, apenas desgostos o esperavam: suas obras não fizeram o menor sucesso, e ele retornou, em 1842, à Alemanha. Estabeleceu-se em Dresden, no posto de diretor artístico.

O apoio real à um anarquista

Enquanto esteve nesse posto, Wagner começou a colocar em prática suas idéias estéticas e musicais, o que pouco a pouco exasperou as autoridades musicais do principado. Além disso, Wagner estava ligado a grupos anarquistas, o que contribuía para que ele fosse pouco querido pela nobreza local. A gota d’água foi a Revolução de 1848, à qual o músico esteve diretamente ligado. Suas relações com os rebeldes resultaram em um exílio de doze anos.

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A atribulada vida pessoal não o impedia de criar. Assim, vagando pela Europa ou estabelecido em algum lugar, continuava compondo as obras que lhe garantiriam lugar na posteridade: O Navio Fantasma, 1843, Tannhauser, 1845, Lohengrin, 1850, Tristão e Isolda, 1865. Os Mestres Cantores de Nuremberg, 1868. Fora isso, desde 1848 vinha trabalhando em um projeto grandioso: quatro óperas interligadas, em um gigantesco ciclo conhecido como “O Anel dos Nibelungos”, cuja composição arrastou-se por quase trinta anos, resultando em nada menos que dezoito horas de música.

Em seu exílio, na Suiça, apaixonou-se por Mathild Wesendonck, mulher de Otto Wesendonk, na casa de quem vivia. Há muito rompera com Minna, mas esta não lhe dava sossego. Em 1859 foi novamente para Paris, onde ficou até 1862. Essa segunda temporada em nada contribuiu para melhorar a imagem que tinha dos franceses. Uma excursão pela Rússia garantiu-lhe meios de sobreviver, mas a situação continuava crítica.

Um lance teatral, bem ao gosto de Wagner, viria reverter toda essa situação. Em 1864, quando suas dívidas chegavam ao auge e ele não tinha mais para onde fugir, recebeu uma mensagem do rei Ludwig II da Baviera, oferecendo-lhe proteção, uma vida estável e tranquila. Como num passe de mágica, todos os problemas se acabaram.

A Casa dos Festivais

Livre de dívidas e preocupações, Wagner pode dedicar-se ao projeto do “Anel”, que estreou em 1876. Entrementes, surgiram problemas com a corte da Baviera, que censurava o rei por sua prodigalidade com Wagner. No campo pessoal, Minna havia morrido, mas o compositor estava apaixonado por Cósima Von Buelow, filha de Liszt, e esposa do famoso maestro Hans Von Buelow. O ruidoso caso levou Wagner a deixar a Baviera, mas Ludwig II não se esqueceu dele, e o compositor pode continuar levando uma vida tranquila.

Uma vida tranquila, porém, não satisfazia Wagner. Ele queria mais. E resolveu colocar em prática uma antiga idéia: construir um teatro para a execução de suas próprias obras. Com o apoio de Ludwig II e de inúmeras “sociedades wagner” fundadas por toda a Europa, o músico construiu, na pequena cidade de Bayreuth, a meio caminho entre a Baviera e a Prússia, foi escolhida para sediar a “Casa dos Festivais”. Finalmente, em 1876, realizou-se o I Festival de Bayreuth, que continuam, até hoje, atraindo multidões. Na estréia estavam presentes, além de Ludwig II, o Kaiser Guilherme e o Imperador do Brasil, um dos mais cultos e eruditos monarcas de seu tempo, D. Pedro II.

Após a consagração, Wagner diminuiu seu ritmo, mas não abandonou o trabalho: em 1882 estreou sua última obra, Parsifal. Viajou para a Itália, de férias, e estava em Veneza, cidade que muito admirava, quando uma síncope o matou, em 13 de fevereiro de 1883.

Obras

Para o ouvinte iniciante, não há como deixar de recomendar algum CD que reúna as principais aberturas e prelúdios de Wagner. Certamente o ideal seria conhecer a ópera completa, de preferência com um libretto traduzido, ou, na pior das hipóteses, uma boa sinopse. Mas, como isso é meio difícil, uma coletânea de aberturas e prelúdios já basta. Obrigatoriamente devem constar as aberturas de O Navio Fantasma, Tannhauser, Lohengrin, Tristão e Isolda, Os Mestres Cantores de Nuremberg e Parsifal.

Em muitas lojas é possível encontrar “Highlights”, “Trechos Selecionados” ou “Trechos Escolhidos” de alguns dramas musicais. O ideal, mais uma vez, seria evitar esse tipo de mutilação, mas, na falta de coisa melhor, serve.

É preciso notar o seguinte: enquanto na ópera tradicional existe uma divisão clara entre os números que a compõe – “ária X”, “coro Y”, “balé z” – em Wagner essa divisão inexiste. Suas obras – que ele preferia chamar de Dramas Musicais, e não de óperas – são contínuas, não são divididas, de modo que é muito difícil separar a contento uma “ária tal” ou “coro tal”. Como é impossível indicar todos as gravações disponíveis nesses excertos, limito-me a indicar bons maestros. O insuperável regente de Wagner foi Mahler, mas não existem gravações dele. Assim, sobra Karajan, ainda hoje um clássico imbatível, Furtwangler, e, atualmente, Daniel Baremboin. Mas, de qualquer forma, fica ao gosto pessoal do ouvinte.

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