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Viagens pelo romantismo com o piano de Lars Vogt
Pianista alemão toca obra de Schumann na abertura da temporada da Osesp
O alemão Lars Vogt volta-se ao piano e toca uma passagem do último
movimento do concerto de Schumann. "Há momentos como esse, em que
Schumann ecoa uma valsa de Chopin", diz ele. Em 2010, comemora-se o bicentenário
dos dois compositores, símbolos do período romântico. E
Vogt, um dos grandes representantes da nova geração de pianistas,
interpreta a obra de Schumann a partir de hoje na Sala São Paulo, em
concertos que abrem oficialmente a temporada da Orquestra Sinfônica do
Estado de São Paulo.
"Cada compositor criou um mundo próprio, mas há pontos de
contato entre eles", diz ele ao Estado na manhã de quarta-feira,
pouco antes do primeiro ensaio com a orquestra, que sob a regência de
Yan Pascal Tortelier vai interpretar também peças de André
Mehmari, Debussy, Mendelssohn e Florent Schmitt. "Para mim é fascinante
perceber como a música retrata uma época - neste caso, o século
19 - e, ao mesmo tempo, pode ser completamente atemporal, porque fala do que
é eterno, a alma do ser humano", diz.
A música de Schumann tem importância grande em sua carreira. Como
isso aconteceu?
Ele é um nome-chave do romantismo e, quanto mais envelheço, mais
me sinto próximo de sua obra. De certa forma, acho que Schumann acabou
se transformando no centro de minha versão de história da música.
É uma obra pessoal, tocante. Há momentos de intensa alegria e
amor e, ao mesmo tempo, esse foi um cara que conheceu a dor humana, que também
transborda na sua criação. Há uma certa fragilidade em
sua música. Às vezes me sinto, enquanto toco, com vontade de protegê-lo
do mundo (risos). A maneira como ele coloca sua alma na música que escreve
é tocante.
Nesse sentido, como vê a importância de seu concerto para piano?
Já se vão mais de 20 anos desde que eu o toquei pela primeira
vez e ainda hoje tenho a sensação de que com este concerto não
há meio-termo. É preciso se entregar a ele, sempre, correndo todos
os riscos que isso acarreta. Você tem que se deixar levar pela emoção
intensa da peça. O lirismo do primeiro movimento; o segundo, que soa
para mim como um conto de fadas; o misto de virtuosismo, com o tratamento revolucionário
do tempo no terceiro movimento, antes da recapitulação do tema
inicial: para transmitir tudo isso, é preciso entrega do intérprete.
Ainda que representantes de uma mesma época, é possível
encontrar características próprias aos mundos sonoros e emocionais
criados por Chopin e Schumann?
Em Chopin sinto uma dor muito forte em cada nota. Claro que há momentos
alegres, que convivem com a dor, mas essa alegria soa dolorida para mim. O que
me parece extremamente fascinante em Chopin, no entanto, é o fato de
que tudo o que ele escreveu estabelece uma relação imediata com
o ouvinte, parece que segue direto ao coração das pessoas. É
mágico.
Estamos falando de autores que nasceram há 200 anos e que foram símbolos
do movimento romântico e da inspiração do século
19. Ainda assim, a música deles parece extremamente atual para a nossa
época.
Acredito que sim e isso porque, na verdade, não acho que o ser humano
mude muito em sua essência ao longo dos séculos. As paixões
humanas são as mesmas. E, de certa forma, em um mundo como o nosso, que
prega a rapidez, a técnica, a performance acima de tudo, o desejo por
algo maior, pelo arrebatamento, acaba se tornando extremamente atual e necessário.
É fascinante perceber como a música retrata uma época e,
ao mesmo tempo, pode ser completamente atemporal, porque fala do que é
eterno, que é a alma do ser humano.
Em que sentido a arte, em sua opinião, pode levar a uma percepção
diferente da realidade? Você trabalha com formação musical
na Alemanha. Em seu trabalho com as crianças , como acha que esse elemento
dev ser introduzido?
O projeto surgiu de um desespero meu e de alguns colegas a partir do tipo de
formação musical que existe hoje. O fato é que hoje os
jovens não têm chance de se conectar com a música, com a
arte em geral, com esse mundo de emoções que a criação
oferece. Tudo é técnica, é desempenho. E, por mais que
isso seja importante, até mesmo na música, não se prepara
um jovem ou adolescente para uma vida plena, em que ele possa estar em contato
com ele mesmo e com o mundo de maneira diferente. A arte nos ensina a nos expressar
e isso se dá porque, antes de mais nada, nos ensina a olhar para nós
mesmos. O ser humano é contraditório, tem dúvidas, e qualquer
pessoa sente em algum ponto um estranhamento com relação a si
mesmo. A música pode ajudar a colocar essa pessoa em contato com si própria.
Ao falar de coisas que não se definem, mas se sente de maneira muito
forte, a música sugere o contato com o que é humano, com a paixão.
Serviços:
Osesp. Sala São Paulo (1.484 lug.). Praça Júlio Prestes,
16, tel. 3223-3966. De hoje e amanhã, 21 h; sáb., 16h30; dom.,
11 h (grátis). R$ 36 a R$ 122
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